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PARABÉNS A DENISE WEINBERG POR SUA PARTICIPAÇÃO MARCANTE EM "MAYSA, QUANDO FALA O CORAÇÃO", MINISSÉRIE DA REDE GLOBO DE TELEVISÃO, NO PAPEL DE AMÁLIA.

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DENISE WEINBERG, S.Paulo. Atriz das mais premiadas do Brasil - Dois Prêmios
Moliere,Três Prêmios Mambembe e vários Prêmios em Cinema.

Denise  e Charlton Heston

 

Querida Denise, é sempre uma honra ter seu depoimento em nosso site. Agradeço a você ter tão solicitamente atendido meu pedido. Nossos leitores encontrarão uma entrevista maravilhosa, escrita com arte por uma atriz inteligente, culta, simples e que ama com paixão o seu ofício. Agradeço de coração sua gentileza.

 

DENISE WEINBERG

1) DENISE você é famosa e premiada  como ATRIZ e DIRETORA DE TEATRO, o que a levou a fazer cinema?
O cinema apareceu na minha vida em 1999, meio por acaso. O meu desejo de fazer cinema sempre existiu, mas como ainda estava no Grupo TAPA (que me desliguei em 2000), vivia muito em função do grupo não sobrando tempo para mais nada. Mas, eis que a vida dá voltas, e SERGIO REZENDE estava rodando Canudos, uma superprodução em que amigos meus estavam fazendo. Houve uma desistˆncia em cima da hora de uma atriz, e eu fui indicada pelos amigos, o Sergio não me conhecia, mas confiou, e eis que me vi no set lá no meio do sertão, conhecendo o Sergio naquela hora e ele também me conhecendo naquele momento. E, milagrosamente tudo rolou. Desde então eu e Sergio fazemos uma parceria no cinema e estou indo pro quinto filme dele que vai ser rodado ainda esse ano.
Sempre acreditei que não sou eu que escolho os papéis, mas são os papéis que me escolhem. É um pouco Pirandeliano, mas acredito que os personagens estão em busca de um ator. Pelo menos na minha vida sempre foi assim. Quando me vi, eu estava fazendo aquele personagem.

2) Como funciona para você ficar longe do contato direto com o público?
O trabalho em cinema‚ completamente diferente do teatro. A composição do personagem‚ diferente, o processo ‚ diferente, tudo ‚ diferente. É outra linguagem, é você e a lente, não tem participação de público, é mais ego trip, é um trabalho mais individual, exatamente oposto do teatro, em que o jogo cênico é importante e a participação e a energia da platéia são fundamentais. Eu diferencio bastante o meu trabalho de atriz em cinema e no teatro. São duas línguas completamente diferentes e gosto das duas. Cada uma tem os seus mistérios, os seus prazeres.

3) Muitos artistas de televisão e cinema têm dificuldades quando fazem teatro, no seu caso como foi esta mudança do teatro para o cinema?
Acho que o teatro é a base pra tudo. Ele te dá o abecedário pra vc depois fazer as combinações possíveis. Mas vindo do teatro, a minha maior dificuldade no cinema foi o pequeno, o menos, menos. No cinema o menos é mais. No teatro vc expande, no cinema, vc recolhe. Mas as emoções são as mesmas, a diferença ‚ a expressão delas. No início, eu me mexia demais, fazia caretas demais, meus braços saíam do enquadramento, até entender como‚ que a coisa funcionava. Sergio Rezende foi um pai pra mim, e foi me apontando o que era teatral, o que não era. E assim fui aprendendo, pra variar como tudo que se aprende no Brasil, meio na orelhada.

4) Você já fez vários filmes, quais os que mais lhe marcou?
O que mais me marcou foi o QUASE NADA, também do SERGIO RESENDE. Foi um filme de baixíssimo orçamento, mas extremamente prazeiroso de se fazer. Eu e Genezio de Barros (formávamos um casal) fomos pra fazenda do pai do SERGIO RESENDE, no interior do interior de Minas. Ficamos lá uns 10 dias só ensaiando: andando a cavalo, tirando leite de vaca, tocando as vacas, andando nos currais, enfim, um SPA rural. Depois rodamos durante 15 dias. Foi o máximo. Eu e GENESIO DE BARROS, que já tínhamos uma longa parceria no teatro, mergulhamos naquele universo. Acordávamos, vestíamos o figurino e ficávamos vivendo o roteiro. Cinema tem esse grande lance: vc se transporta espacialmente para outro mundo, se isola, esquece de tudo e fica ali "brincando" (playing), atuando. No teatro, vc fica na caixa preta imaginando. Depois de vinte dias, quando voltamos pra São Paulo, no aeroporto, um olhou pra cara do outro, parecíamos que estávamos vindo de outro planeta. Foi literalmente "uma viagem".

5) Ultimamente quais foram os filmes em que atuou ou esteja atuando?
Ano passado fiz o último longa do Waltinho Salles (LINHA DE PASSE) que estréia agora no FESTIVAL DE CANNES. Fiz também uma série pra HBO, dirigida por KARIM AINOUZ (diretor do CÉU DE SUELI) e SERGIO MACHADO (diretor de CIDADE BAIXA), que estréia em setembro. Foi uma bela experiência filmar durante seis meses, toda semana. Aprendi muuuuuito.
E agora estou entrando em outro setor do cinema também. Estou fazendo o casting e a preparação de atores do próximo filme do SERGIO RESENDE, SALVE GERAL, que vai ser rodado a partir de agosto aqui em SP. Também vou fazer como atriz.. Está sendo uma bela parceria com o Sergio, pois estou pegando o filme desde o seu comecinho. Quando o roteiro saiu quente, Sergio me mandou e me convidou pra fazer com ele casting e uma parceria nos ensaios. E no início do ano que vem, também vou fazer casting e preparação do filme SÉ, ONDE A CARNE É FRACA, de EDU RAMOS, seu primeiro longa, um super amigo meu, cineasta, que me dirigiu no curta BMW VERMELHO, que fiz como atriz junto com OTÁVIO AUGUSTO. Aliás, quem quiser dar uma olhada está no site www. portacurtas.com.br

6) Quais os diretores com quem trabalhou?
Além do SERGIO (4 filmes), trabalhei com BETO BRANT, EDU RAMOS, EGYDIO ERONICO (italiano), WALTER SALLES, SYLVIO BACK, SERGIO MACHADO, KARIN AIUNOUZ e fiz vários curtas, com pessoal se formando em faculdade, o que aliás adoro fazer (JULIO PESSOA, DANIEL CHAIA, REN‚ GUERRA).

7) A direção em teatro é muito diferente do cinema?
É, completamente. Primeiro que no teatro vc ensaia durante no mínimo dois meses, onde vc tem chances de experimentar, de jogar fora, de repetir quantas vezes quiser, vc lida com a repetição, o que muda tudo. No cinema cada segundo custa dinheiro; em geral os ensaios são muito poucos, a direção tem que se preocupar com uma parafernália enorme (luz, enquadramento, foco, lente, direção de arte, interpretação do ator, eixo, continuidade, uma equipe enorme atrás de vc, etc). No teatro, se vc tem só os atores, ele acontece. No cinema não. O cinema exige uma parafernália enorme. Num set tem muita gente, às vezes gente até demais. O cinema é uma indústria e o teatro‚ um artesanato. Acho que a diferença é essa. Um não é melhor que o outro, são processos diferentes. No teatro, eu me debruço sobre o texto e no trabalho dos atores pra dali tirar algo. No cinema o diretor tem que ficar ligado na costura do filme, filmar pensando na edição, no encaixe daquela cena de às vezes um minuto, num filme de duas horas. O WALTER SALLES me disse uma vez, durante as filmagens,  que todo dia, quando ele entrava no carro pra ir filmar, no caminho ele ficava passando na cabeça entre que cenas estavam as cenas que ele iria filmar naquele dia. E no meio do trânsito, ele ficava costurando as cenas, ou seja, o ritmo, o "time". Super interessante o trocadilho... Em vez dele costurar no trânsito, ele "costurava" na cabeça (rsrs)

8) Quais as diferenças mais marcantes na interpretação para o teatro e para o cinema?
Pra mim, a diferença maior é que no cinema vc tem que entender o que está sendo filmado. Por exemplo, às vezes a lente está somente na tua mão, nos teus olhos, então, tua energia tem que estar focada pra região que a lente está filmando. No teatro, o teu corpo inteiro está no foco. Não dá  pra vc abandonar nenhuma parte do seu corpo, pois a platéia está te vendo inteira, então vc tem que se preocupar com tudo seu: onde está seu pé, onde está sua mão, onde está seu pensamento. No cinema vc tem a possibilidade da edição, ou seja, vc  tem que entender o movimento da câmera, onde ela está, o que ela está focando então vc pode se fragmentar pra dar atenção somente pra sua mão ou pro seu olhar, ou pra uma parte específica do seu corpo que está sendo focada.
Outra grande diferença é a vocal. No teatro vc precisa ter voz, ter projeção, ter imagem na palavra. No cinema, vc usa microfone de lapela, ou seja, vc pode falar super baixo que não tem problema nenhum. Teve um lance muito engraçado no primeiro filme que eu fiz (Canudos). A atriz com quem eu contracenava tinha uma voz muito pequena, sem extensão nenhuma, e nossa cena era na noite no sertão, ao ar livre, em que conversávamos uma com a outra naquela imensidão. Eu, na minha ingênua ignorância, dava a deixa na minha voz de teatro, e ela, na voz de televisão, respondia, e eu, em cena, mal conseguia ouvir o que ela dizia, pois era tão pra dentro, tão pra dentro, que eu não sabia quando tinha que responder. Sergio, o diretor, muito sem graça, interrompeu, pedindo gentilmente pra tentarmos equalizar: ela falar um pouquinho mais alto e eu falar MUITÍSSIMO mais baixo. E aí, percebi, que eu não precisava daquele esforço todo, bastava murmurar que o microfone captaria. Aí é que fui entender a sutileza que a voz pode ter num outro tom diferente do que eu tinha no teatro, num tom quase que só pra mim, em que na verdade, o outro não precisa escutar, mas o microfone pode captar. Por isso que eu afirmo que é uma outra linguagem, em que vc tem que entender as sutilezas que ela lhe oferece e não impor as tuas facilidades. Tive que aprender a falar daquela maneira, aproveitando as sutilezas das facilidades que a técnica sonora te traz. E aí se abriu um outro universo de possibilidades. E isso é muito bom, sempre, para um artista.

9) Como você vê o cinema brasileiro no momento atual?
Acho que o cinema brasileiro está em plena ascensão. Nunca se fez tanto cinema no Brasil, e isso é muito bom. Ainda acho que existe muita distância no trabalho do ator e a direção. Sinto que os diretores ainda têm muita dificuldade, ou sei lá, talvez seja até insegurança de trabalhar com atores. Por isso contratam "preparadores" que muitas vezes são verdadeiros embustes, como fui vítima de uma, que se dizem "preparadores" mas que são verdadeiros carrascos ignorantes, que arrebentam com vc, com teu material, com tua voz, pra fazer com que a cena fique viva. Acho que ninguém tem o direito de humilhar ninguém, torturar, maltratar, em nome de seja lá o que for. Não acredito nisso, acho que é simplesmente um problema mal resolvido de quem administra. Acessar um ator exige delicadeza, tato, generosidade, curiosidade, para que ele aos poucos desabroche, confiando na sua mão. É tão lindo ver um ator entender, se debater, procurar e de repente achar e ir florescendo sob a tua direção. Existe já a angústia da criação, não precisamos apanhar, nos humilharmos, sermos maltratados/maltratar para render. Isso é doente. Estamos falando de criação artística, de beleza, de sensibilidade. Portanto, alerta aos jovens: não acreditem nisso. O ofício do ator exige trabalho, dedicação, disciplina, que são fatores libertadores do espírito para poder criar. Esses processos destrutivos são para encobrir uma profunda incompetência e falta de conhecimento. Criar enclausurado, maltratado, sob pressÆo ‚ poss¡vel, mas gera grandes doen‡as e desequilíbrios. Aprisionam o espírito. Não acredito no sadismo, no abuso do poder, pra poder extrair do "ator" o que ele pode dar. Cinema exige uma preparação tão sofisticada como a de um ator de teatro. Exige trabalho, treinamento, conhecimento, cultura.

10) Dirigir filmes lhe atrai?
Nunca pensei em dirigir filmes, sinceramente. Como adoro estudar, gosto também de ficar atrás das câmeras, observando, aprendendo, gosto da energia de um bom set, gosto daquela movimentação toda. Talvez quando eu achar que estiver preparada, por que não? Hoje em dia nesse país, qualquer um pode fazer tudo não é? Uma grande jornalista é atriz na novela das oito, uma modelo tem um programa de entrevistas, uma sobrevivente do Big Brother estrela uma novela, portanto, tudo é poss¡vel. Mas não está nos meus planos dirigir cinema não. Não tenho conhecimento pra isso. Quero ficar no lugar que me cabe.

11) Que conselhos  daria  para os artistas jovens que almejam fazer cinema?
ESTUDAR, ver muito filme, ver não a historinha, mas como a câmera se posiciona, como o ator se comporta, ler sobre, aliás, recomendo um livro ótimo do JEAN CLAUDE CARRIERE, LINGUAGEM SECRETA DO CINEMA, em que ele compara a função do roteirista à função do ator, de uma forma super simples e muito interessante, pois este cara foi roteirista de LUIS BUNEL, PETER BROOK, portanto passou pelo teatro e pelo cinema de uma forma intensa, profunda, que vale a pena visitar.

12) Sei que você fez um filme com CHARLTON HESTON, como foi esta experiêcia internacional?
Este filme com CHARLTON HESTON foi uma aventura. Era uma produçao ítalo/belga/tcheca/americana, que como vcs podem ver foi uma Babel.  Falava-se várias línguas no set. O filme era todo falado em inglês, o que pra mim foi uma dificuldade enorme. Apesar de falar fluentemente o inglês, uma coisa é falar, outra coisa é representar em outra língua, o que é muito diferente. Estudei muito, eu tinha uma coach que ficava do meu lado, com uma fita cassete, pra eu fazer um sotaque específico. Então, durante o dia no set, volta e meia ela ficava do meu lado, testando o sotaque, me ajudando, enfim, me dando uma orientação. Charlton Heston foi um encontro com um BenHur decadente. Ele me fez entender o que é ser de Hollywood. Quer dizer: ele estava programado para simplesmente atuar. Toda a minha fantasia do BenHur foi por  gua abaixo quando o vi, pois aquele BenHur mal andava, e nem decorava texto nenhum. Tudo foi feito com dálias espalhadas pelo set inteiro. Ele simplesmente não se comunicava com ninguém, e era como se fosse um robô: preparado pra dar específicas respostas, não deixava ninguém se aproximar, enfim, um monumento de pedra, que não tinha nada de humano. Até hoje não sei se ele era assim, ou se foi a idade que o fez assim. Mas quando vi "Tiros em Columbine", vi que ele era assim mesmo. Me deu uma certa depressão...

13) DENISE, gostaria que acrescentasse algum ponto interessante que não tenha sido abordado nas perguntas ou respostas anteriores.
Como dizia PAULO AUTRAN:
"O TEATRO É A ARTE DO ATOR
O CINEMA É A ARTE DO DIRETOR
E A TELEVISÃO É A ARTE DO PATROCINADOR !!"

Muito SUCESSO  em seus trabalhos, estaremos aguardando ansiosos para aplaudí-la. Beijo carinhoso MARÍLIA


Beijo pra ti também, MARÍLIA, e estamos aí. Até a próxima.
DENISE WEINBERG

 

 

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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