Repórter Malu Vergueiro entrevista GLORINHA BEUTTENMÜLLER

 

“MENTIR É POLUIR O MUNDO”

“As pessoas hoje não se olham, não se escutam e não se falam, apenas gritam.”
O diagnóstico é de Glorinha Beuttenmüller, a fonoaudióloga que, aos 84 anos, ensinou os maiores artistas, jornalistas e políticos brasileiros a se comunicar com o povo.


Pronto-socorro da voz, salvadora da pátria, maga do vídeo, moderadora da fala do jornalismo brasileiro, mulher capaz de fazer milagres.
Aos 84 anos de vida, mais da metade deles dedicados ao ofício de cuidar da voz e da alma - de políticos, jornalistas, atores, atrizes, empresários, cantores, locutores, oradores, juristas, professores, e de tantos outros, a fonoaudióloga e terapeuta da fala Glorinha Beuttenmüller é a dona de cada um desses apelidos.
E com um detalhe especial: todos conferidos a ela por gente como: Fernanda Montenegro, Marcos Paulo, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Mauro Mendonça, Irene Ravache, Leilane Neubarth e por aí vai.

Nos anos 60, Glorinha desenvolveu um método próprio para o trabalho da voz, o Espaço Direcional, baseados nas sensações e na comunicação com o corpo todo. Para ela, palavras tem imagem, forma, cheiro e sabor - além de poder.

Durante 18 anos foi fonoaudióloga exclusiva da Rede Globo e ali aprimorou a colocação de voz de atores e jornalistas.

Atualmente, além de cursos regulares de impostação, também dá atendimentos individuais em seu gabinete de trabalho - como faz questão de definir - instalado nos fundos da casa na Tijuca, no Rio de Janeiro, onde mora de segunda `a sexta-feira. Os fins de semana são passados no apartamento da Barra: "Aos sábados e domingos, só atendo emergências, como nos casos dos atores que perdem a voz e estão em cartaz, por exemplo. Mas, acredito que quando alguém nos telefona com alguma necessidade, seja ela qual for, é obrigação falar o tempo necessário, o quanto a pessoa quiser. Para mim, isso é o querer bem ao ser humano".

Quando o assunto é política, opina pouco por opção.
"É uma questão de ética. Atendo a todas as classes, todos os partidos, e quero mais é que o Brasil seja a maior potência do mundo." Mas quando se trata de temas familiares, a fonoaudióloga emudece.

Há 12 anos, Glorinha perdeu um filho, o engenheiro Antonio Frederico,em uma operação mal sucedida. Ainda hoje, mal consegue falar sobre o assunto. "A morte de meu filho desestruturou a minha vida. O tempo realmente não apaga. Mas ele me deixou um casal de netos, um aviador e uma psicóloga.
E mais do que isso: duas bisnetas e uma tataraneta de 1 ano." Sua filha Vânia, também fonoaudióloga lhe deu a terceira neta.

Com variados prêmios na bagagem e mais de cem livros publicados, Glorinha acaba de lançar TRAGÉDIA: O MAL DE TODOS OS TEMPOS, fruto de uma parceria entre o Instituto Montenegro e Raman de teatro e a Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). O livro, que ensina como lidar com emoções e proteger a voz, funciona como uma espécie de manual de bem-estar para qualquer pessoa.

Mas avisa "Não faço receita de bolo porque cada ser humano é único". Com a palavra, Glorinha Beuttenmüller.

 

COMEÇO DE CONVERSA

"Nada na vida é por acaso. Quando eu era pequena, por causa da profissão de meu pai, fiscal do imposto de consumo, viajava muito. Acabei pegando os vícios de linguagem de diversas regiões do Brasil.
Quando cheguei aos 7 anos, ninguém entendia o que eu dizia. Naquela época, para melhora a fala, se aprendia a declamar. Então passei a ser uma dizedora de versos, com o privilégio de ter aprendido as primeiras poesias no colo de Érico Veríssimo, amigo de meu pai, lá em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul.
Depois, já no Rio de Janeiro, comecei a ensinar a arte de falar. Em 1964 veio o primeiro curso de Foniatria no Brasil e então fui fazer para ter conhecimento científico. Dois anos depois foi criado o de Fonoaudiologia e fiz também. E foi assim que me tornei Fonoaudióloga."

 

O MÉTODO DE GLORINHA

"O meu método, Espaço Direcional, surgiu em meio a pesquisas com deficientes visuais. Espaço é visão e visão é tato à distância. Portanto, devemos tocar as pessoas por meio de um abraço sonoro. Um dia, uma professora cega de nascença bateu em minha porta me pedindo para ajudá-la com um discurso que iria fazer. Ela falou-me: "Não sou uma pessoa mutilada. Apenas não enxergo e estou aqui para você me explicar o significado de palavras que desconheço e não vejo". E continuou:"Não é preciso me explicar o que é o sol. Vejo o sol porque sinto seu calor. Mas a Lua não sei como é". Refleti: se ela vê o sol porque tem calor, há então uma questão de pele aí, de sensações. Respondi:" A Lua é morna, inspira os namorados". Em seu discurso havia a palavra respingos.
Molhei a minha mão, fiz um movimento em sua direção e disse: "Respíngos". Naquela hora nasceu o método. A palavra tem imagem, forma, cheiro e sabor. Não é apenas um conjunto de sons articulados. O discurso da moça fez tanto sucesso que fui chamada pelo diretor do instituto para ensinar aos cegos a arte de falar. Muitos colegas dizem:"Glorinha é empírica". Sim,sou. "É intuitiva". Sou. Mas sou cientista também. E este ano, para teses de doutorado, duas profissioanais defenderam o meu método e ele foi comprovado cientificamente."

 

O CORPO FALA

"Temos os órgão internos e a observação do externo. Temos olhos, mas a visão é o sentido da vontade. A pessoa só vê o que quer ver. Daí vem a problemática igual à dos cegos: voz para dentro, estridente, titubeando. Tudo porque não observou o tridimensional. A pele é o maior órgão do corpo humano, por onde absorvemos as sensações do ambiente. Para falar com modulação é preciso estudar o corpo como se estuda geografia. Saber de onde se tira a minha voz para modular a fala. Temos de falar sempre com o coração, que está do lado esquerdo. Mas, no momento de revolta, de raiva, vamos buscar no lado direito, no fígado.
Dá um gosto amargo na boca, ficamos com problemas de deglutição da saliva, o que é um malefício à voz. A fisionomia tem de ser trabalhada também porque revela nosso estado de espírito. Nossa voz é para o outro, por isso a importância de sentir e desejar."

 

ESCRITA VERSUS FALA

"A escrita é linear, está sempre dormindo. A fala é a sua ressurreição. Seu despertar. O mundo teve superioridade porque o homem falou. E ele falou pelas modulações, pela observação da natureza. Toda palavra é a melodia do nosso interior. Em geral, o escritor tem sempre a voz debilitada. Carlos Drummond de Andrade tinha, assim como Antônio Maria. Chico Buarque, no início, também. Só depois é que foi melhorando, quando passou a cantar mais. Quando se escreve e pensa muito tempo sem falar, depois de umas cinco horas em silêncio estará rouco, com a voz embutida.
O pensamento faz vibrar as cordas vocais, mas para dentro. E a voz é um presente que devemos dar aos outros."

 

MUNDO MODERNO

"Os indivíduos de hoje não se olham e todos gritam. Estamos em uma época de velocidade e as pessoas querem falar sem se olhar. Sem o olhar não há comunicação.
É preciso saber olhar, ver e enxegar". Se você olha, toma conhecimento. Se você vê, toma consciência. Se você enxerga, tem convicção. Então você fala certo. O problema é que no mundo de hoje não há mais tempo para prestar atenção a determinadas coisas que são importantes. Como, por exemplo, ouvir o que o outro fala."

 

SABER ESCUTAR

"A orelha tem a forma de um ponto de interrogação. E a audição é o nosso sentido mais ativo. Mas hoje em dia as pessoas não tem tempo para escutar. Tem sempre alguma coisa para fazer. Eles ouvem e não escutam. O por que disso? O egoísmo. Se você me encontrar daqui uns anos pode ter certeza que vou me lembrar da cor da sua roupa.
Porque há interesse. As pessoas hoje em dia não tem mais interesse por nada, a não ser por si próprias. O egoísmo é algo que destrói."

 

SILÊNCIO

"Muitas famílias se dizem unidas e contam que tem o costume de se reunir todas as noites. Mas um está lendo a revista, o outro, o jornal, os demais estão vendo TV. Sim, estão todos juntos. Mas isolados, Não trocam palavras."

 

O GRITO

"O grito é uma voz aguda sem freios. É um olhar sem ver. Ele começa quando acaba a força das palavras. Quem grita é quem tem menos razão. Impossível tentar resolver qualquer questão no grito, pois a voz se verticaliza. Gritar uma vez ou outra, como uma descarga de tensão, tudo bem. Mas ficar gritando todo dia só faz mal. Uma boa conversa, com classe, é sempre bem melhor".



PILOTO AUTOMÁTICO

"Tem de haver equilíbrio e talento na hora de falar. E talento vem de talentum, balança. Falamos muitas coisas que não sentimos porque o homem virou automatismo permanente. Para mim, esse é o motivo de sua autodestruição. Muitas vezes dou um exercício e peço para a pessoas repetí-lo três vezes. E aí já querem fazer dez ou vinte vezes. Digo que não. Porque se automatizar não vai funcionar. É preciso parar, pensar, refletir e sentir."

 

RESPIRAR É VIVER

"Eu não ensino ningúem a respirar. Se há vida, há respiração. Se não existe nenhuma complicação médica, o problema é de vida. Vamos então acertar a vida para respirar melhor. Muita gente diz que não tem nada, apenas um probleminha respiratório. Tem tudo. Se acha que tem um probleminha respiratório é porque tem u problema de vida. Respirar é viver. Respirar é movimento e o movimento tem sempre de existir. Senão é morte."

 

BOTAR PARA FORA

"Verbalizar é descarregar tensões. É projetar o que está dentro de nós. Mas se o que eu quero dizer vai magoar alguém, então não devo falar. Mas se eu ficar engasgado, o que fazer? Procurar um exercício que possa codificar essa mágoa para fora por meio do som. E aí é possível se sentir muito melhor."

 

POLUIÇÃO DO MUNDO

"Para mim, a poluição do mundo é gerada muito mais pela fala mentirosa e maldosa do ser humano.” Porque a voz se forma pelo movimento expiratório, pela saída de ar. Essa saída de ar é um gás carbônico. Então nós temos de transformar esse gás em vida para não poluir o mundo.
Mas as pessoas mentem. Segundo o poeta gaúcho Mário Quintana,
“A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Eu acho esse pensamento fabuloso. A sonoridade da voz é diferente quando mentimos. Isso porque a voz vai para a cabeça. Não passa pelo sentimento. Qualquer pessoa é capaz de identificar um mentiroso. Hoje, então, é só ligar a televisão e ver alguns políticos falando."

 

O QUE DIZEM NOSSO POLÍTICOS

"Muitos políticos e empresários estão estragando a voz por meio de conflitos e arrogância. Quando atendo a um político, por exemplo, passo o dia inteiro com ele.
Começamos às 9 de manhã e terminamos às 6 da tarde, sem interrupção. Desligo-me de tudo para poder detectar os mínimos detalhes. Às vezes alguém está dizendo uma coisa, mas seus pés dizem outra.
Comemos apenas um lanche, até porque muitos deles precisam aprender a comer um sanduíche. Preciso ensiná-lo a ler no teleprompter, como evitar palavras que não devem ser ditas, com dizer outras tantas."

 

SIMPLES ASSIM

"Hoje, meu dia a dia é mais cauteloso. Porque já passei por todas as estações da vida: verão, primavera, outono e agora cheguei ao inverno. E aí é preciso ter muito cuidado para não ficar congelada. Começa a aparecer muita coisa... A vista fica fraca e tenho de estar toda hora no oftalmologista. Os joelhos ficam doendo e aí preciso procurar um chinês para melhorá-los. Faço meus atendimentos, mas não com o exagero de antigamente.

Amo o que Garcia Márquez falou:
"Descobrir o privilégio da simplicidade". É lindo.
E eu luto diariamente para ter esse privilégio. Quanto mais sucesso, mais quero ser simples. A começar pelo meu nome. Não foi à toa que escolhi ser chamada e conhecida como Glorinha.

 

REVISTA PODER
JOYCE PASCOWITCH


 

 

         

 

 

 

 

 

 

 

 

© Todos os direitos reservados - Ano 2002