É com muita honra que recebo em meu site um dos maiores Autores de Novelas Brasileiras da Rede Globo, RICARDO LINHARES. Tenho certeza que todos os que lerem sua deliciosa entrevista vão ficar encantados com sua inteligência , objetividade, simplicidade e delicadeza de suas respostas. Suas novelas são apreciadas no Brasil e no Mundo. Muito obrigada Ricardo pela presteza com que atendeu minha solicitação.Sou sua fã.


Cara Marília, é um prazer participar do seu site. Muito obrigado pelo seu carinho. Conta comigo! Um abraço Ricardo

1)De todas as novelas que escreveu , quais as que você destaca como maiores sucessos ?

Destaco “Tieta”, que foi ao ar em 1989, baseada no livro homônimo de Jorge Amado. Eu escrevi esta novela em parceria com Aguinaldo Silva e Ana Maria Moretzhon. Foi dirigida por Paulo Ubiratan e estrelada por Betty Faria, José Mayer e Joana Fomm. Além de ter sido uma novela muito prazeirosa de escrever, ela foi bem dirigida e interpretada. Tivemos os atores certos nos papéis certos. Era uma histórias leve, satírica, com toques da malícia baiana e, ao mesmo tempo, romântica. Foi um grande sucesso de audiência e de crítica. Porém, o mais importante é que foi um trabalho muito tranquilo e gratificante.

2) Quais as etapas do seu processo de criação de uma novela?

Eu começo a desenvolvê-la a partir de uma história base, que vai servir de espinha dorsal para a novela, em torno da qual vão se desenvolver os outros núcleos da trama. Por exemplo, em “Agora é que são elas”, de 2003, eu comecei a partir do conflito de amor e ódio entre Juca Tigre (Miguel Falabella) e Antônia (Vera Fischer). Eles foram apaixonados no passado, e no presente são inimigos políticos, mas no fundo continuam se amando. O que foi que houve no passado que fez com que eles rompessem o noivado? A partir desse segredo, eu construí o resto da trama e fui criando os diversos núcleos de histórias paralelas, sempre em função do casal de protagonistas.

3) No decorrer dos capítulos a opinião do público afeta o roteiro ?

Com certeza. A opinião do público é fundamental para determinar os rumos de qualquer novela. Seja em pesquisas qualitativas de audiência encomendadas pela Rede Globo, seja através de conversas informais com familiares, amigos e vizinhos, todas as opiniões são muito importantes para elaborar os destinos dos personagens. O autor nunca deve dar ao personagem um rumo com o qual não concorde, apenas para agradar a audiência. Mas também nunca deve dar ao personagem uma trajetória que provoque a rejeição do público, apenas por arrogância. Procurar o meio-termo, o caminho do equilíbrio, é o nosso objetivo.

4) Quando imagina os personagens principais já tem em mente os artistas que vão vivê-los?

Não há regras. Algumas vezes, os personagens já nascem com o rosto dos atores. Outras vezes, enquanto o personagem vai sendo elaborado e construído, o intérprete ideal surge aos poucos. A opinião do diretor da novela e da cúpula artística da Rede Globo também são fundamentais. O autor não escolhe o elenco sozinho. Todos os nomes são escolhidos de comum acordo entre autor, diretor e emissora. Mas há casos em que apenas um ator pode interpretar um personagem. Por exemplo, em “Porto dos Milagres”, Aguinaldo Silva e eu escrevemos o papel de Félix Guerreiro para Antônio Fagundes. E dissemos à Globo que se o Fagundes já estivesse comprometido com outros trabalhos, nós adiaríamos a novela até ele estar disponível. Sem ele, não haveria novela.

5) A palavra falada tem vida, você quando escreve costuma interpretar o papel?

É muito engraçado. Enquanto escrevo, eu vou falando os diálogos, contracenando comigo mesmo. Às vezes, repito mentalmente, outras vezes chego a falar em voz alta, vivendo a cena que estou escrevendo. Assim, o diálogo nasce vivo, coloquial, verdadeiro, não literário. É comum escrever uma cena de comédia e rir ao mesmo tempo em que digito no computador. Ou chorar e me emocionar numa cena dramática.


6) Os atores coadjuvantes muitas vezes se destacam , neste caso você incrementa seus papéis?

Claro. Numa novela, que fica de sete a nove meses no ar, praticamente todos os personagens têm os seus momentos de protagonistas. Alternadamente, as histórias paralelas vão ganhando destaque e ocupando o foco da atenção durante algumas semanas. Um elenco forte, coeso, talentoso e harmonioso é fundamental para o sucesso de uma novela. É um grande prazer ver um papel que à princípio seria pequeno crescer graças à atuação do seu intérprete. O trabalho do ator é um grande incentivo para o autor escrever mais. Não há papel pequeno. Todo personagem pode crescer, se o ator se empenhar, der tudo de si, surpreender. Essa é uma das grandes diferenças que existem entre a novela de televisão, que é uma obra aberta, e as obras fechadas, como teatro e cinema. Na novela, quando um ator se destaca num papel, o seu personagem cresce e acontece.

7)O final da novela pode ser modificado devido a empatia dos personagens com o público?

Pode. Novela é obra aberta. Como na vida, tudo pode acontecer. Não existem caminhos pré-determinados, o caminho é feito à medida que nós caminhamos. Claro que quando começamos a escrever uma novela, nós sabemos como queremos terminar. Mas não sabemos ainda exatamente como faremos isso, de que maneira concluiremos a trama. Temos uma idéia do todo, mas as pequenas peças que compõem o quebra-cabeça vão sendo encaixadas apenas quando chegam os momentos finais. E para isso a empatia dos personagens e, principalmente, o trabalho dos atores é fundamental para darmos o fecho à obra.

8) Como é feita a interação entre autor e diretor?

É diária. Quando a novela está no ar, eu gosto de falar com o diretor da novela todos os dias, quase sempre mais de uma vez por dia. Há sempre dúvidas para tirar, coisas para ouvir e falar, trocas de sugestões, palpites. Enfim, é um trabalho de grande afinidade. E não pode ser de outra maneira, para uma obra que fica tantos meses no ar. O autor e o diretor têm que ser cúmplices.

9) Como você lida com o sucesso de ver suas novelas dubladas e apreciadas em vários países?

É um grande prazer saber que pessoas de outros países, muitas vezes de culturas tão diferentes da nossa, como a Rússia, por exemplo, acompanham a sua história, torcendo pelo destinos dos personagens que você criou. A voz é um instrumento poderoso para o ator. O ideal é que a dublagem acompanhe as nuances de interpretação do ator que compôs orginalmente o personagem, para preservar a força do trabalho.

10 )Em 2003 foi encenado no teatro com sucesso, um texto seu premiado “O dia que John Lennon morreu”, qual a diferença em escrever para teatro e televisão? Já tem outra peça para 2004?

Eu tenho vontade de voltar a escrever para o teatro. Mas a televisão está sempre me solicitando novas histórias. E quando eu começo a pensar numa trama, automaticamente já vou imaginando o seu desenvolvimento em forma de novela. Mas é um projeto que acalento para o futuro.


11) Que dicas de interpretação poderia dar aos atores novos que almejam atuar em suas novelas?

A dica que eu dou é estudar. É preciso preparar a voz, o corpo, exercitar-se em ensaios e grupos de estudo, adquirir cultura geral, ler os clássicos, aguçar a curiosidade, manter-se informado sobre o que acontece no mundo. Enfim, o estudo é fundamental para todos nós. É uma profissão difícil e concorrida, que requer disciplina, disposição, garra e sorte. E eu desejo boa sorte a todos nós que nos aventuramos nela!...

RICARDO, gostaria de agradecer sensibilizada a gentileza de suas respostas.Sou fã de suas novelas pelo dinamismo e inteligência com que lida com as histórias que se entrelaçam. Foi um privilégio ter um autor tão talentoso como você em meu site. Um beijo carinhoso Marília.

 

 

   
   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

© Todos os direitos reservados - Ano 2002